Os problemas da chuva?
Talvez hoje seja um bom dia para uma reflexão acerca dos impactos que os seres humanos causam ao meio ambiente. Nesse momento, enquanto eu escrevo, a cidade de São Paulo sofre as consequências de fortes chuvas: enchentes, deslizamentos, congestionamentos e, infelizmente, mortes.
Geralmente, a culpa recai sobre galerias de drenagem subdimensionadas ou ainda sobre São Pedro – que mandou uma chuva forte demais. Pensemos um pouco mais…
Existe um ciclo hidrológico que nos diz como a água (hidro) “caminha” no meio ambiente. Ela evapora, se precipita, é absorvida pelo solo, segue para rios, canais e mar. Simplificadamente é assim que funciona o ciclo natural da água. Daí nós - população – chegamos implantando grandes cidades e pra não atrapalhar a nossa vida tratamos de, rapidamente, impermeabilizar tudo, canalizar e retificar rios. Pra completar – e como se não bastasse – joga-se um lixinho ou outro na rua (afinal, que mal faz um papelzinho de bala? ou uma garrafinha de água?).
Obviamente não existe possibilidade de se manter um equilíbrio ambiental. Quem é afetado? Nós! Ou seja, é um ciclo que como o próprio nome diz volta trazendo aquilo que nós (seres humanos) deixamos pra trás.
O lixo nosso de cada dia
Jogar lixo na rua, em rios e canais faz com que bueiros fiquem entupidos, rios e canais assoreados impedindo ou dificultando a passagem da água. A água sempre encontra um caminho preferencial, ou seja, bloqueando de um lado a água vai sair pelo outro.
assoreamento: obstrução, por areia ou por sedimentos quaisquer, de um rio, canal ou estuário(…) – Dicionário Aurélio.

Enchente causada pelo transbordamento do Rio Tietê em setembro (2009) – fonte: Moacyr Lopes Junior, Folhaonline
Impermeabilizando ruas, terrenos, praças etc
É assim (nas palavras de um professor meu): ” O solo – húmus – é uma grande esponja que absorve a água que cai e vai soltando aos poucos e alimentando o lençol freático. Posteriormente a água segue para o rio.”Isso faz com que tenhamos rios caudalosos o ano todo, ainda que em períodos de estiagem.
Quando impermeabilizamos (com concreto, asfalto etc) o solo impedimos a absorção da água, que – procurando seu caminho preferencial – segue para o rio ou corpo d’água mais próximos. O rio, por sua vez, não está acostumado a receber um volume tão grande de água e com uma alta velocidade. A água devido à sua alta velocidade vai levando tudo o que encontra pela frente (solo, sedimentos etc) e o rio vai sendo assoreado. O volume de água não cabe mais no “compartimento” rio e ela “vaza”, causando as incômodas enchentes.
Desmatamento de margens e retificação de rios
A vegetação que fica nas margens dos rios (especialmente) tem a função de proteger o rio, evitando a erosão das margens e, posterior, assoreamento. Retirar essa vegetação e, ainda, impermeabilizar não é uma boa idéia. Outro ponto, que cabe a nós urbanistas mudarmos é a mania de retificar rios. Os rios possuem meandros (curvas) por um motivo muito simples: diminuir a velocidade da água no momento da chegada no mar. Quando o rio é retificado estamos, mais uma vez, aumentando a velocidade da água e criando problemas para as cidades.
- Eu aqui citei o caso de São Paulo, mas todos nós sabemos que quase todas as grandes cidades brasileiras enfrentam esses problemas, consequência da falta de percepção ambiental nossa e de nossos políticos. E pensando bem, eu não colocaria a culpa em São Pedro…
Fonte da figura lá em cima: Blog Tá querida?


Oi Carol. Eu moro em São Paulo e sempre vejo todo esse lance de chuva, enchente, ruas intransitáveis, morros desmoronando. E sempre fico pensando quais são os problemas para que isso aconteça. Apesar de ter conhecimento de que a cidade é impermeável ao extremo, e que isso impede a absorção da água pelo solo, eu sempre acabava pensando que o problema devia ser a velocidade com que a água cai (tempestades fortes que em pouco tempo alagam a cidade). E acabava não exatamente culpando São Pedro, mas pensando que a cidade é que foi construída no lugar “errad”, um lugar que sempre choveu muito e sempre teve áreas alagadas. Mas agora lendo seu blog e aprendendo o raciocínio do seu professor, eu mudei um pouco a minha visão. Realmente o impacto que aplicamos na natureza afeta, e muito, no curso das águas!
Oi Larissa! O que temos feito nas nossas grandes cidades é potencializar (e muito!) qualquer efeito negativo que as chuvas possam ter (mas não deveriam ter). Não haverá solução de engenharia (ou de arquitetura, ou de urbanismo…) que dará jeito na situação enquanto não entendermos a interação entre ser humano e meio ambiente.
No mais (obviamente) fico feliz por te ajudar a entender um pouco mais. :)
o problema é nitidamente de ordem social: enquanto o processo de cresimento urbano continuar a se pautar pela segregação e expulsão dos mais pobres para as periferias extremas (não por acaso em áreas de manancial), continuaremos a lidar com enchentes e alagamentos.
Os mesmos grupos políticos que defendem a ampliação da marginal tietê são aqueles que lutam contra a presença das populações de baixa renda nas áreas centrais.
onde está escrito “cresimento”acima, leia-se “crescimento” (erro de digitação)
Oi Gabriel. Concordo que parte do problema está na questão social, é evidente que ocupar áreas de mananciais, margens de rios etc prejudica o escoamento das água superficiais (e eu sei tb que eles não estão ali porque querem). No entanto, não devemos esquecer da questão ambiental. Não somente a população mais pobre não tem noção do funcionamento ambiental, como também a população mais rica. Inclusive, obviamente, nossos políticos. Temos cidades “formais” inteiras impermeabilizadas, o que prejudica – e muito – o escoamento da chuva e o tempo todo pessoas – ricas, pobres, classe média – jogando lixo na rua como se isso não tivesse consequência. No meu entender não há política boa para as cidades enquanto não houver o entendimento de que o ambiente tem um funcionamento e nós fazemos parte disso.
abçs